POR WILLIAM DOUGLAS: “SER JUIZ”



Publicado

AJUFERJES

Autor

Luísa Borges Pontes

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Data de Publicação

02/02/2018 00:00:00

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Ser juiz.

 

Você se encastela, reclamam.

Você tem FB, TT ou Insta, reclamam.

Você se cala, reclamam.

Você fala, reclamam.

 

Se fala difícil, ABNT, pós-doc, juridiquês,

é elite empolada e distante.

Mas fale simples, para “gente comum” entender,

misture “você” com “tu” e...

dirão que não estudou direito, nem Direito:

vão corrigir seu português como se fosse em um concurso público!

 

(Aviso logo: misturo você e tu, e escrevo autoajuda e ajuda do Alto... Falo termos simples, e me misturo com as partes.

Alguns erros de português são mais bonitos de

escrever do que usar a forma culta. Disso também reclamam.)

 

Se não atende a imprensa, "está no castelo" e "ignora o povo";

"não dá satisfações", "é elite" nefelibata.

Mas se atende, explica, conversa, então ouve:

“Popstar”, “volte pros autos”, “seja um bom juiz, cala-te”...

ou... “quer ser senador” ou “quer ser presidente”, “quer aparecer”.

 

Enfim, proteja-se:

nem dê entrevistas,

nem as recuse.

 

Como? (Ora, você não é um deus?)

Eis nosso sacerdócio: fique em silêncio e

tenha o dom da ubiquidade.

 

Põe terno, é engravatado; mas se o tira, reclamam.

Você solta, reclamam. Prende, reclamam.

 

Segue as leis, é “legalista”, e reclamam;

mas se segue princípios da CF, é “ativista”... e reclamam.

Desde o tempo na advocacia me ensinaram:

“Réu inocente, ataque as provas; réu culpado, ataque o juiz...”

Então o atacam, e ainda reclamam.

 

Garante a lei para todos, mesmo os ricos, é porque é elite...

Mas se decide pelo pobre, continua sendo “elite”.

Nunca aceitam tirar essa pecha, nunca olham de onde veio a maioria dos juízes.

Na pior das hipóteses, classe média.

Mas chamar de “elite” é mais chique. Sempre.

 

Não se mete na Administração, é fraco e tíbio,

mas se faz alguma coisa, é “judicialização” da saúde e da política.

 

Você não acha que tem que decidir quem deve ser operado primeiro; isso é coisa de médico,

mas todos os dias tem que garantir leito, remédio, internação e cirurgia.

Cadê a £@&€£¥•# do Ministério da Saúde? Cadê o governo?

 

Você não quer decidir isso, mas juiz tem que decidir, não?

Se nega a internação, remédio ou cirurgia, é insensível e dorme achando que matou uma pessoa; mas se conceder a tutela, é você o culpado por “quebrar” o orçamento.

 

Quando você não decide é moroso, lento, omisso.

Mas se decidir, é apressado e “decidiu errado, seu arbitrário”.

Quem perde nos chama de burro ou comprado,

quem ganhou de demorado.

 

Se não combater a escancarada corrupção a todos notória,

é vendido, cúmplice, bandido.

Mas se prende, é cúmplice do outro partido, ou arbitrário.

 

Você, candidato ao concurso para o cargo, saiba:

sempre será burro, lento ou rápido demais, ou bandido.

E elite, claro!

Aprenda a lidar com isto.

 

Quanto mais combate o crime,

mais cortam seus reajustes, orçamento e meios.

E falam mal de você;

sempre a honestíssima crítica, a honestíssima mídia.

Aos candidatos ao cargo, logo aviso:

não se ataca os corruptos impunemente.

 

Se você não recebe data-base, se calam.

Se contribui 14% do bruto, se calam.

Se recebe menos do que outras categorias, se calam.

Se passa sete anos com o mesmo contracheque, se calam.

(você é elite, você é elite!)

Reclamam do AM, mas só do AM dos juízes.

Parlamentar, pode; Poder Executivo, pode também.

Juiz, não (só para juízes é que é imoral, entenda).

 

Se exerce sua autoridade, é tirano;

se não a exerce, é um banana.

É honesto e trabalha, mas não adianta: vivem enchendo sua paciência citando a meia dúzia que nos envergonha.

 

Não concorda com a aposentadoria compulsória que não vira perda de cargo, mas não adianta: você trabalha e ainda assim reclamam.

 

Todos querem que haja juízes em Berlim,

mas ninguém respeita os juízes de Berlim.

 

Quanto mais omisso, mais paz; reclamar sempre reclamam.

Aos candidatos advirto: que seus travesseiros não reclamem.

Sobre as demais vozes, alerto:

Decidiu a favor, você é justo;

decidiu contra, você é burro ou bandido.

 

Não conte com o STF, nem com o CNJ:

eles garantem lhe vigiar,

mas não garantem suas prerrogativas

nem os meios para bem trabalhar.

Não vá se preocupar com a LOMAN,

nem com o art. 37, X, da CF.

Não conte com eles.

 

Azar dos juízes que precisam contar com políticos

ou tribunais políticos,

e sorte dos políticos que podem legislar o que bem entenderem sobre os juízes.

A cúpula dos 3 Poderes dará suas soluções, mas esqueça a independência e a autonomia. Contente-se com a harmonia dos Poderes. Eles sempre serão muito harmônicos mesmo que isso signifique ignorar a situação dos juízes (os "de piso", claro).

 

Nunca se esqueça:

abuso de autoridade é coisa só para juiz, promotor e polícia.

Parlamentar, jamais;

governante que nega remédio, previdência e escola, jamais;

parlamentar e governante que vendem decisão, jamais.

 

Mas há como jamais ser punido: basta deixar tudo como está.

Vão lhe chamar de omisso, de elite, mas não vai rolar crime, nem denúncia na ONU, Haia ou para o Papa. Nem campanha na mídia para dizer que seu tio usa meias coloridas. Há como se proteger:

Cale-se juiz; cale-se MPF; cale-se, Federal.

 

(Aos Policiais Federais, um aviso: acordem 8 da manhã e jamais terão negados os seus reajustes e orçamento, vocês ganharão viaturas novinhas para ficarem paradas no pátio. Não mexam com os poderosos, não apareçam às 6 da manhã na mansão de algum corrupto... e tudo ficará tranquilo!)

 

Falando em concursos, se for fazer mestrado vão lhe discriminar.

Você não tem tempo para só que pesquisar, escrever e coisas assim. Querem dedicação e tempo exclusivo... entenda.

Nada de operar o paciente. Nada de se misturar com a patuleia:

apenas fale dela, defenda-a com discursos, não com liminares.

Se for para o pós-doc, ou mesmo antes, lembre-se: suas decisões existem para serem criticadas por quem não tem que resolver os problemas reais das vidas das pessoas.

Todas as suas liminares serão usadas contra você em juízo popular e de imprensa.

 

Ser juiz é aprender que deve fazer justiça para os outros,

mas jamais pedi-la.

“Justiça” é termo que não lhe cabe... elite, elite, elite.

Afinal, se você é juiz, usa a CF e acessa o Judiciário...

(A) se perder, é burro, pediu o que não podia;

(B) se ganhar, é bandido, assim como seu “cúmplice” que lhe deu o seu direito.

 

Não se meta com nomeações, deixe que o Rei decida

(obstrução de Justiça, cigarro, trabalho escravo ou malas e cuecas recheadas não são assunto seu!).

E deixe que fraudem as cotas, e que condenados fiquem soltos.

Melhor, nem condene: ricos são perseguidos; pobres, oprimidos.

Ninguém deve ser punido. Isso é coisa de burguês capitalista, de insensível social: solte todos, ou nem prenda.

Meta-se o menos possível. Proteja-se.

Tudo que fizer será um grande abuso.

Eis uma solução:

seja um abajur na vetusta decoração da República,

não um agente de transformação (isso é muito antipático).

O imperador, a mídia e os condenados não gostam de juízes em Berlim. Aprenda.

 

Vá para o MPF: paga mais, aporrinha menos (só não se meta a combater a corrupção. Ali, ou na Polícia Federal, prometo: combata a improbidade e também será maltratado).

 

Vá para a consultoria jurídica do Senado, ou opte por ser Notário! São nobres funções, e necessárias, pagam mais e ninguém o aporrinha.

 

Pense bem antes de querer ser juiz, pense.

É preciso querer muito ser juiz, ou não compensa.

Aliás, acho que raramente compensa.

Reflita: há cargos que pagam mais e doem menos.

Bons cargos, vá para um deles! Alguns recebem honorários, outros AM, olhe!

 

Após 30 anos de formado, 25 de magistrado, eu alerto:

pense bem, candidato ao cargo,

reflita muito. Você, sendo juiz, é culpado.

Pense, repito, pense bem: há outros cargos.

 

Mas, se for mesmo ser juiz, lembre-se de Caio Fernando Abreu:

 

“(...) tem o seguinte, meus senhores: não vamos enlouquecer, nem nos matar, nem desistir. Pelo contrário: vamos ficar ótimos e incomodar bastante ainda.”

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William Douglas, juiz.