NOITE FELIZ EM 2017: A CANÇÃO ALCANÇA O SEU DUCENTÉSIMO NATAL



Publicado

Luísa Borges Pontes

Autor

Do juiz federal B. G. da Costa Fontoura e Maria Teresa W. T. da Costa Fontoura

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Data de Publicação

05/12/2017 00:00:00

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NOITE FELIZ EM 2017: A CANÇÃO ALCANÇA O SEU DUCENTÉSIMO NATAL.

  1. G. da Costa Fontoura e

Maria Teresa W. T. da Costa Fontoura

bgdacostafontoura@gmail.com

1 – Igreja de São Nicolau, Oberndorf bei Salzburg, 17 km a noroeste de Salzburg, Áustria, na nevada noite de 24 para 25 de dezembro de 1818: foi onde e quando soou pela primeira vez, durante a missa do galo, a canção Stille Nacht, heilige Nacht (Noite silente, noite sagrada, em tradução literal), com música composta por Franz Gruber sobre poema enunciado por Joseph Mohr, a fim de festejar a vinda de Cristo. Presentemente, traduzida para dezenas e dezenas de idiomas e dialetos no mundo inteiro, constitui ela a mais famosa canção natalina da cristandade ocidental, adotando em vernáculo o título de Noite feliz, infiel ao original.

2 – Padre Joseph Mohr, também designado como Josephus Franciscus Mohr, de progênie humilde, filho de Franz Mohr, soldado, e Anna Schoiberin, bordadeira, nasceu em Salzburg, em 11 de dezembro de 1792, i. é, na mesma cidade em que nascera W.A. Mozart (1756 – 1791). Estudou em monastério beneditino e em liceu, até ingressar em seminário da Arquidiocese de Salzburg, ordenando-se em 21 de agosto de 1815. Enquanto exercia ele o sacerdócio auxiliar em Mariapfarr, Ramsau, Lungau (1815 - 1817), escreveu o poema (1816), dois anos antes de vir o mesmo a ser musicado por Gruber (1818), quando, então, já atuava ele como pároco coadjutor em Oberndorf, bem adaptado ao ambiente daquela aldeia, habitada majoritariamente por famílias de balseiros e barqueiros do rio Salzach. Depois, dedicando-se ao seu ministério religioso em Wagrain, Pongau, 55 km a sudeste de Salzburg, Mohr instituiu um fundo para amparar crianças de pais carentes e faleceu, vitimado por doença pulmonar, na mesma Wagrain, em 4 de dezembro de 1848, uma semana antes de completar cinquenta e seis anos de idade.

3 – Quinto dos seis filhos de Joseph e Maria Gruber, um casal de tecelões de linho, Conrad Xaver Gruber nasceu em Hochburg-Ach, Innviertel, 40 km a noroeste de Salzburg, em 25 de novembro de 1787, e, posteriormente, teve o seu prenome alterado para Franz. Trabalhou em tecelagem até dezoito anos, tendo estudado para o magistério e também estudado música. Foi organista, diretor musical e Schulmeister (professor de ensino fundamental) em Arnsdorf bei Laufen, aldeia vizinha a Oberndorf. Compôs missas, canções sacras e profanas, música para dança etc. Ele se casou três vezes: com a viúva Maria Elisabeth Engelsberger, em solteira Fischinger, (1808) e com sua ex-aluna Maria Breitfuss (1825), das quais enviuvou, e, por fim, com Katherine Wimmer (1842). Nos seus últimos anos, Gruber viveu em Hallein, 15 km a sudeste de Salzburgo, onde faleceu em 7 de junho de 1863, com setenta e cinco anos de idade.

4 – Inspirado em Lucas, 2, 6-20, único evangelista a retratar a natividade em Belém, e concebido em alemão, e não em latim, o poema consiste em seis estrofes, de seis versos cada uma (sextilhas), todas elas iniciando pelo verso "Stille Nacht, heilige Nacht!" e findando com o quinto verso repetido no sexto (refrão), obedecendo as rimas ao esquema aabbcc. Peça musical em ré maior, andamento moderato, em compasso lento (6/8), alla siciliana, teve de ser executada em uma guitarra, na noite da estreia, porque o órgão de São Nicolau apresentara defeito, quando, então, cantaram Mohr (tenor) e Gruber (barítono). Depois, recebeu ela vários arranjos até a morte de Gruber (1863), havendo um primeiro para orquestra (1845) e um outro para órgão (1855). Modernamente, porém, solistas e coro costumam cantar apenas três estrofes (primeira, sexta e segunda, em tal ordem), desprezando-se as demais, mas a Stille Nacht Gesellschaft, entidade de preservação da obra, preconiza o canto das seis estrofes. 1/4

5 – Na estreia a canção obteve sucesso, mas, ainda assim, mergulhou em ostracismo. Seis anos depois, um fabricante de órgãos levou uma partitura para o seu Tirol nativo, gerando a presunção de se tratar de peça do folclore tirolês. Paralelamente, confusões fizeram com que a autoria da composição musical fosse atribuída a Johann Michael Haydn (1737 – 1806), mas, felizmente, o equívoco se evaporou ainda quando Gruber vivia. Atingindo a luterana corte da Prússia (1834), o rei Frederico Guilherme IV (1795 – 1861) ordenou que a canção, embora nascida católica, fosse interpretada anualmente pelo coro da catedral berlinense, na véspera de cada Natal, e fez questão de conhecer Gruber pessoalmente. De lá espalhou-se ela para outras paragens, nem sempre germanófonas. Assim, chegou também à ortodoxa corte russa e aos ecléticos EUA (1838), onde John Freeman Young (1820 – 1885), então um clérigo episcopaliano na célebre Trinity Church, Nova York, traduziu para o inglês e publicou três estrofes (1859). Com relativa celeridade, partindo da Europa, atingiu os continentes africano, asiático e oceânico, onde potências europeias impunham o colonialismo ou, pelo menos, impunham aos povos dominados regimes semicoloniais. No final do século XIX, já estava mundialmente consagrada.

6 – Lamentavelmente, a igreja de São Nicolau não mais existe, pois sofria alagamentos, porque construída muito próxima ao Salzach, e acabou demolida no começo do século XX. Para substituí-la, na década de 1920, ergueu-se em um terreno mais elevado, afastado do sítio primitivo, a minúscula Stille Nacht Gedächtniskapelle (Capela Memorial da Noite Silente), hoje um ponto de atração turística, embora artificial, uma vez que desprovida de autenticidade.

7 – Quando a canção atingiu o seu centésimo Natal (1917), o mundo em geral e a Europa em especial estavam envolvidos no sangrento conflito armado que depois viria a se tornar identificado como primeira guerra mundial (1914 – 1918), mas, no seu centésimo aniversário (1918), já se restabelecera a paz. Agora, exaurido um século desde então, com o poema e a música já caídos em domínio público, apesar de desavenças circunscritas a certas regiões e de ameaças constantes, ainda reina relativa paz, numa situação distinta daquela de cem anos atrás.

8 – Hertha Ernestine Pauli (1906 – 1973), jornalista e escritora vienense, irmã do cientista Wolfgang Pauli (1900 – 1958), Nobel de física (1945), deixou a sua pátria em consequência do advento do Anschluss (incorporação da Áustria ao Terceiro Reich, 1938), migrando para a França primeiramente e, após a ocupação alemã desta última (1940), para os EUA, onde se radicou e onde se realizaria como polígrafa. Lá, motivada para aclarar a gênese da canção, lançou ela uma pequena, mas valiosa, obra: Silent Night: the Story of a Song (1943), concorrendo decisivamente para universalizar, graças a traduções para outros idiomas, informações sobre as origens da canção e, outrossim, para divulgá-la, máxime entre o público infanto-juvenil.

9 – Ainda no século XX, a cinematografia germânica instalou enigmáticos realces para Mohr e Gruber, fazendo-os personagens de um intenso drama de amor: Magdalene – sedução proibida (orig. Magdalena. República Federal da Alemanha, 1989), produzido, roteirizado e dirigido por Monica Teuber (n. 1945) e protagonizado por Nastassja Kinski (n. 1961).

10 – Em março de 2011, a UNESCO declarou a obra como patrimônio cultural imaterial: chancela do destino de tão sublime canto de harmonia e paz!

NOSSA MENSAGEM: B. G. da Costa Fontoura e Maria Teresa W. T. da Costa Fontoura comparecem para apresentar os seus votos de um Feliz Natal em 2017 (o ducentésimo da canção) e de um Próspero 2018 (o ano de seu bicentenário), augúrios esses extensivos aos seus familiares e a todos aqueles que lhes são caros.

Rio, dezembro de 2017. 2/4

APÊNDICE: A ÍNTEGRA DO POEMA E A RESPECTIVA TRADUÇÃO PARA O PORTUGUÊS.

Padre Joseph Mohr, que também estudara música, escreveu o fascinante poema em 1816 e o seu texto figura em sucessivos autógrafos (musicais) de Franz Gruber*, manuscritos por este no decorrer dos anos. O Autógrafo I (Arnsdorf bei Laufen, 1818) está desaparecido, de modo que o texto infra transcrito não advém do mesmo, mas sim do Autógrafo VII (Hallein, c. 1855). A tradução subsequente, porém, não observa regras poéticas essenciais, como métrica e rima, pois se propõe a revelar o mais fielmente possível o espírito do original, motivo por que não se presta ela para o canto, salvo alguns versos.

ALEMÃO (SÉCULO XIX) PORTUGUÊS

1 - Stille Nacht, heilige Nacht! 1 – Noite silente, noite sagrada!

Alles schläft; einsam wacht Todos dormem; solitário e desperto

Nur das traute heilige Paar. Apenas o familiar casal sagrado.

Holder Knab im lockigten Haar, Encantador menino de cabelos anelados

Schlafe in himmlischer Ruh! Dorme em celestial repouso!

Schlafe in himmlischer Ruh! Dorme em celestial repouso!

2 – Stille Nacht, heilige Nacht! 2 – Noite silente, noite sagrada!

Gotes Sohn! O wie lacht Filho de Deus! Ó como sorri

Lieb ‘aus deinem göttlichen Mund, Amor desde a sua divina boca,

Da schlägt uns die rettende Stund’. Então acerta-nos a hora da salvação.

Jesus** in deiner Geburt! Jesus em seu nascimento!

Jesus** in deiner Geburt! Jesus em seu nascimento!

3 – Stille Nacht, heilige Nacht! 3 – Noite silente, noite sagrada!

Die der Welt Heil gebracht, Trouxe a salvação ao mundo

Aus dem Himmels goldnen Höhn , Desde as alturas douradas dos céus,

Uns der Gnaden Fülle läßt seh’n Abundância de graças visíveis para nós:

Jesus** in Menschengestalt, Jesus em figura humana,

Jesus** in Menschengestalt. Jesus em figura humana.

4 – Stille Nacht, heilige Nacht! 4 – Noite silente, noite sagrada!

Wo sich heut alle Macht Onde neste dia todo o poder

Väterlicher Liebe ergoß De amor paternal foi derramado

Und als Bruder huldvoll umschloß E como um irmão amorosamente abraçou

Jesus** die Völker der Welt, Jesus os povos do mundo,

Jesus** die Völker der Welt. Jesus os povos do mundo.

5 – Stille Nacht, heilige Nacht! 5 – Noite silente, noite sagrada!

Lange shon uns bedacht, Já há muito prometido a nós,

Als der Herr vom Grimme befreit, Como o Senhor que livra da ira

In der Väter urgrauer Zeit Do Pai desde tempos remotos.

Aller Welt Schonung verhieß, Salvação prometida ao mundo inteiro,

Aller Welt Schonung verhieß. Salvação prometida ao mundo inteiro.

6 – Stille Nacht, heilige Nacht! 6 – Noite silente, noite sagrada!

Hirten erst kundgemacht Antes foi conhecido pelos pastores

Durch der Engel Halleluja, Através do anjo, aleluia;

Tönt es laut bei Ferne und Nah: Ressoa altamente longe e perto:

Jesus** der Retter ist da! Jesus, o Salvador, está aqui!

Jesus** der Retter ist da! Jesus, o Salvador, está aqui!

*Gruber, em alguns escritos, é referido, erroneamente, como se também fosse sacerdote.

**Em interpretações recentes, canta-se o cognome Christ, em vez do nome Jesus. 3/4

P R I N C I P A I S F O N T E S C O N S U L T A D A S

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bgdacostafontoura@gmail.com Rio, dezembro de 2017.

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